
JOÃO SAMPAIO - Acredito que a implantação da USP em Jaú é fruto de uma soma de esforços, que envolveu lideranças de toda a região. Fui procurado primeiramente por alguns líderes do município, particularmente o Ruy Pacheco e o Celso Pacheco, que me solicitaram um contato com a diretoria da ESALQ/USP sobre a possibilidade de termos um campus avançado dedicado à bioenergia. Procuramos a diretoria da ESALQ, que repassou o pleito ao novo reitor e num empenho coletivo junto ao Governador José Serra, foi possível realizar tal projeto em tempo recorde. O prefeito municipal, deputados e lideranças da região também foram preponderantes nesta conquista. A Camargo Correa teve papel fundamental para alcançarmos este objetivo. Depois da elaboração do projeto, a Secretaria de Agricultura se tornou peça importante para viabilizar a implantação dos cursos, uma vez que criamos dispositivos para o compartilhamento de nossa área de pesquisa com a USP para o desenvolvimento das aulas práticas.
ANTENA RURAL - De que maneira o senhor enxerga a integração dos trabalhos da ESALQ com a APTA?
JOÃO SAMPAIO - A ESALQ já trabalha com a área de pesquisa da Secretaria, bem como atuamos conjuntamente em workshops, seminários e repasse de tecnologia para o setor produtivo. No caso da parceria em Jaú, a ESALQ precisava de um campo de experimentos para as aulas práticas na área de bioenergia, nossa unidade atua desde a década de 30 em desenvolvimento e testes de novas variedades de cana-de-açúcar. Unimos as duas expertises e faremos da região um pólo formador de profissionais na área.
ANTENA RURAL - Como os produtores regionais podem se beneficiar dos estudos que serão desenvolvidos em Jaú, relativamente ao etanol e ao biodiesel de segunda geração, ou seja, extraído do bagaço da cana-de-açúcar?
JOÃO SAMPAIO - A região inteira irá se beneficiar de tais estudos porque estes trarão resultados diretos para a produção em bioenergia. Jaú é um dos principais pólos produtivos de cana, grandes grupos de usinas estão instalados na região, então a parceria do setor público e privado também é uma oportunidade para a geração de mais tecnologia e, consequentemente, empregos e renda. O nosso foco está na busca de tecnologia e, com isto, poder repassá-la ao produtor.
ANTENA RURAL - Qual a sua opinião sobre a transformação do Centro de Tecnologia Canavieira para sociedade anônima?
JOÃO SAMPAIO - Eu acredito que seja positivo, uma vez que o CTC poderá acessar mais recursos no mercado e com isto desenvolver mais tecnologias e poderá disponibilizar no mercado. È importante a competitividade na área de tecnologia. Hoje, por exemplo, temos a Canaviallis que foi adquirida pela Monsanto, temos a Syngenta entrando neste mercado. È importante a pulverização e a competitividade na geração de tecnologia.
ANTENA RURAL - Sabemos do sucesso do Programa Pró-Trator, projeto desenvolvido por sua Pasta, no sentido de estimular a modernização da frota de tratores para os produtores rurais paulistas. A sua equipe trabalha em algum projeto semelhante voltado a outros insumos agrícolas, como adubo ou calcário, por exemplo?
JOÃO SAMPAIO - Não temos estudo a este respeito, mas acabamos de lançar na Agrishow Ribeirão Preto, um programa complementar ao Pro Trator, que financia máquinas e implementos agrícolas a juro zero – o Pro-Implemento. Também é voltado para pequenos e médios produtores rurais com renda bruta anual de até R$ 400 mil e teto de financiamento de R$ 35 mil por produtor. Além do juro zero, o produtor tem até cinco anos para pagar e três anos de carência. Acreditamos que este programa também seja um sucesso.
ANTENA RURAL - O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou medidas que ampliam as garantias socioambientais como a exigência da celebração de um termo de ajuste de conduta para o produtor rural contratar um empréstimo. Como o senhor avalia esta situação?
JOÃO SAMPAIO - Esta exigência do BNDES aplica-se aos financiamentos realizados em áreas de fronteira agrícola com objetivo de evitar o desmatamento e colaborar na recuperação de áreas degradadas. Tenho apenas uma preocupação que isto não se torne regra ou condicionante para concessão de financiamentos em áreas de produção consolidada, porque aí a complicação é muito grande e injusta com o produtor que ocupa a região há décadas. As regras não podem ser as mesmas para realidades tão diferentes.
ANTENA RURAL - Estudos do CEPEGE da ESALQ afirmam que o produtor de cana tem uma lucratividade negativa de 20%. Os agricultores, insatisfeitos com referidos números, acusam as usinas de formação de cartel, reclamam da imposição de exclusividade e de preços e reivindicam uma agência reguladora para o setor. A indústria, por seu turno, diz que os contratos obedecem a regras de mercado. O que o senhor pensa sobre o assunto?
JOÃO SAMPAIO - Eu acredito que o setor tenha um instrumento de permanente diálogo, que é o Consecana. Claro que ele deve ser constantemente aprimorado, mas é um importante fórum de discussão e aperfeiçoamento. Neste ano, ele deve ser revisado e a participação transparente de seus componentes é imprescindível para as boas relações do setor e equilíbrio da cadeia produtiva como um todo.
ANTENA RURAL - Quais as dificuldades para se implantar uma agência reguladora sobre biocombustíveis?
JOÃO SAMPAIO - A criação de agências reguladoras compete ao Governo Federal. O setor como um todo precisa demonstrar a necessidade de se criar uma agência para regulá-lo.
ANTENA RURAL - Se houvesse a garantia do “preço mínimo” os fornecedores de cana não estariam mais protegidos?
JOÃO SAMPAIO - A existência de preço mínino não garante a compra do produto por aquele preço no mercado. O preço mínimo funciona quando o Governo é comprador. Precisamos é fortalecer os fóruns de discussão para as cadeias produtivas. Por isto, acredito em fóruns como o do Consecana, este é o local para a formatação e discussão não de preços, mas de remuneração do setor.
ANTENA RURAL - Em que pese à defesa intransigente da livre iniciativa e das regras de mercado e considerando que eles possuem políticas agrícolas baseadas na fixação do homem no campo, com subsídios e garantias como a do “preço mínimo” de sua produção rural, o senhor não vê desigualdade na competição entre o Brasil e os países desenvolvidos?
JOÃO SAMPAIO - A proteção oferecida seja pelo subsidio na produção ou exportação, notadamente na Europa, aos produtores de açúcar afeta a nossa competitividade. É um tratamento desigual e injusto. Mas o Brasil conseguiu nos painéis internacionais do comércio mundial alcançar algumas vitórias e isto foi importante e um marco na luta contra os subsídios. Este é um processo de conquista e nós já avançamos nesta área e ainda temos um longo caminho a percorrer.